Carreira de gestão: o gestor como negociador dos contratos psicológicos

Recentemente defendi minha tese de doutorado na USP investigando o tema “contratos psicológicos de trabalho”. Basicamente falamos de contratos psicológicos para indicar um acordo existente de forma implícita sendo que seu conteúdo é subjetivo, existente na relação, e não dito.

Por exemplo, aquele “acordo de cavalheiros” onde um indivíduo “X” sabe que precisará ajudar o indivíduo “Y” em reciprocidade a alguma ação passada de Y sem que nenhum dos dois precise proferir sequer uma palavra. Pois bem, justamente aí reside o novo desafio do gestor nas organizações: negociar os contratos psicológicos a partir das relações que constrói com sua equipe.

Como consultor na Formare Associados, tenho difundido este conhecimento nas diversas organizações onde estamos presentes e aproveitando para aprofundar sempre que possível o conhecimento sobre o tema. Logo, o que percebemos é que aqueles gestores que possuem habilidade de fazer a gestão dos vínculos profissionais, tanto com pares e equipes quanto com superiores, levando em consideração aspectos do contrato psicológico, são também aqueles mais legitimados e com melhores resultados uma vez que conseguem transitar em um espaço subjetivo onde não há manuais ou diretrizes a serem consultados, apenas a sensibilidade e agilidade para perceber aspectos implícitos das relações que os colocam em posição privilegiada.
Assim, temos um contexto que exige nova postura dos líderes nas organizações. Cito aqui três principais:

1. Estamos em tempos onde a nova força de trabalho exige empregabilidade e diversidade em termos de desafios profissionais valorizando a aprendizagem em detrimento do status profissional;
2. O cenário econômico e de emprego é favorável com alta demanda para profissionais qualificados, o que gera novamente o discurso da retenção de talentos como diferencial competitivo;
3. As organizações tem se tornado cada vez mais projetizadas, o que exige novas habilidades de gestão as quais ainda encontram-se em desenvolvimento e concepção.

Logo, em um cenário onde há prevalência de ambiguidade e complexidade, os gestores são convocados a se tornar “a empresa” em muitas ocasiões, o que lhes impinge a responsabilidade de negociar os contratos psicológicos de sua equipe de forma a garantir não somente altos níveis de entrega, mas um ambiente propício ao desenvolvimento humano que ofereça chances de crescimento e aprendizado para aqueles que lá operam. A boa notícia é que isso é possível.
Uma estratégia bastante eficiente a qual temos empregado nas organizações em inúmeras capacitações de gestores tem sido a estratégia de negociação desses acordos implícitos os quais podem antecipar diversas situações e evitar aqueles “mal entendidos” tão presentes nas relações profissionais. Trata-se de um alinhamento entre as principais responsabilidades, obrigações e expectativas de uma forma estruturada que facilite a discussão de tópicos que comumente não seriam discutidos em uma relação pela crença de que o outro tem absoluta certeza do que “eu quis dizer”. Ao conseguir estabelecer este espaço de negociação, percebemos que os gestores tornam-se cientes dos anseios e desejos de seus subordinados, e também habilitam o tom de sua gestão de forma mais rápida e eficaz. Logo, a estratégia de negociação dos contratos psicológicos, também mostra-se como um excelente instrumento de legitimação que pode ser utilizada tanto para um gestor que acaba de assumir uma equipe quanto para aquele que incorpora novos membros para seus times dentro das organizações.

E você? Já pensou em quantas vezes chegou a conclusão de que “aquilo não havia sido combinado?” ou que “não era bem isso que tinha em mente?”. Pois é, já avaliou a possibilidade de fazer a negociação de seu contrato psicológico? 

Nas próximas colunas discutiremos alguns dos dilemas da carreira de gestão e também algumas histórias sobre o processo de rompimento dos contratos psicológicos. Não perca.