Trajetória de Carreira: o efeito das circunstâncias

Na última semana, durante uma discussão com executivos a respeito de dimensões contemporâneas sobre carreira, Laura, uma das participantes fez uma consideração pertinente, que nos remeteu a reflexões importantes:

"Marcos, estamos realmente diante de um cenário que exige mudança significativa em todo o processo de gestão de pessoas,a começar pela atração e recrutamento.

Observo isto, pois recentemente participei em um processo e fiquei perturbada com a questão inicial da gerente de recrutamento. Perguntou-me ela qual era a minha formação! Como se o curso dissesse mais a meu respeito do que as posições que ocupei, os projetos que participei e os resultados que obtive!"

 

A Laura tem razão em surpreender-se. Assim como a entrevistadora com a reação da Laura, uma vez que as experiências vividas por ambas e as circunstâncias a que estão sujeitas determinam visões de vida e carreira. Nesse sentido, devemos observar alguns pontos:

  1.  É necessário reconhecer a influência do contexto na concepção sobre o que significa ou passa a significar construção da carreira, carreira de sucesso e realização pessoal e profissional para cada profissional;
  2.  Em seguida analisar as circunstâncias vividas pelo profissional. Por exemplo, na década de 1980, com rupturas econômicas, sociais, políticas e tecnológicas nos levaram ao início de toda uma nova concepção sobre a carreira e sucesso de carreira. Já os ingressantes no mercado na década de 2000 viveram emergência e convergência de mídias, tecnologias, novas atividades, profissões e organizações;
  3.  Finalmente, como cada um tem respondido às situações, as consequências e o impacto em si e nos demais interlocutores (circunstâncias);

Desse modo, observamos que se para as gerações anteriores (Baby Boomer e X) o sucesso estava condicionado à (i) ascensão na 'escada' corporativa ou na (ii) legitimidade da "profissão escolhida" (médicos, advogados, dentistas etc), para as novas gerações o contexto atual ampliou as oportunidades de sucesso via realização pessoal e profissional. Assim, somam-se as duas alternativas clássicas outras duas alternativas: (iii) carreira como envolvimento em projetos e atividades de complexidade crescentes; e/ou, (iv) a carreira como um conjunto de experiências e a construção e convivência em diferentes identidades.

Portanto, o desafio que se impõe aos profissionais e aqueles que desejam orientá-los (career counselors) é buscar dar conta desta nova, complexa e desafiadora concepção, decorrente das circunstâncias do contexto atual, associada às questões de fórum íntimo e deliberação interna, interdependentes ou entrelaçadas (interowen) com o contexto e as circunstâncias atuais e da história do profissional. Assim sendo, mesmo os conselheiros de carreira terão de reinventar-se, como condicionante para que possam alcançar sua própria realização pessoal ou profissional, contemplando alternativas de carreira dado o propósito de cada profissional, ou seja, do “indivíduo”.

Desse modo, um conselheiro de carreira deveria observar à Laura que enquanto suas experiências e projetos vividos são relevantes para sua identidade profissional, para a sua entrevistadora, uma enfermeira "de carreira", a identidade para ela está na formação e não na vivência de novas experiências. A questão é que não há certo ou errado, mas apenas o requisito de observamos cada vez mais diversidade e multiplicidade de visões. Gerenciar as expectativas associadas a cada visão é o próximo e ainda mais complexo desafio.

Em resumo, para um entrevistador da geração X um profissional que mudou muito, trocou de área, atividade e empresa é alguém que ainda não sabe bem o que quer. Por outro lado, para um jovem das gerações recentes, millenium por exemplo, é exatamente o que ele quer: mobilidade, novas experiências e alternativas de novas identidades, simultâneas, múltiplas ou, momentaneamente, únicas.

Nas próximas publicações trataremos das questões de identidade e o desejo de experimentar dos “recém chegados” ao mercado de trabalho e os desafios para os novos e não tão novos gestores.