Processo sucessório em organizações brasileiras

Tese de doutoramento de Marcos A. A. Ferreira na FEA-USP

Resumo

A sucessão ocorre nas organizações independentemente de ter sido ou não planejada. Trata-se de uma realidade do cotidiano organizacional reconhecida como um fator de representativa importância na estratégia devido à influência que exerce sobre o modelo de gestão, os indicadores de resultado e as relações sociopolíticas, naturais das relações humanas. Enquanto a sucessão pode ser considerada um evento pontual, o planejamento sucessório decorre de ações deliberadas, anteriores e posteriores ao evento propriamente dito.
A tradição das pesquisas sobre sucessão enfoca essencialmente as empresas familiares e seus herdeiros, com algumas iniciativas de análise das posições mais altas da hierarquia das organizações (e.g., a de presidente). Trata-se de estudos de abordagem positivista, funcionalista e sistêmica, com raras publicações e discussões sobre o processo sucessório nas diferentes posições da organização. O presente estudo parte da seguinte pergunta de pesquisa: "Como o processo sucessório pode ser explicado e representado considerando-se a sua dinâmica sob o conjunto de circunstâncias a que está sujeito e as ações e estratégias colocadas em prática pelos atores e grupos sociais organizacionais (i.e., comitê sucessório, sucessores, sucedidos, profissionais de recursos humanos)?" Na busca de respostas a essa questão, tem-se como objetivo verificar, com base em uma abordagem interpretativa-contextualista, como se desenvolve e ocorre o processo de sucessão na organização brasileira, excluindo-se aspectos associados a proprietários e herdeiros. Para tanto, lançou-se mão do método de Ground Theory para coleta e análise dos dados. Entre outubro de 2013 e novembro de 2014, foram realizadas 109 entrevistas com um tempo total de gravação de aproximadamente 70 horas, além da observação de seis reuniões com duração média de duas horas. O 'campo' onde se realizou a pesquisa foi constituído por atores sociais em diferentes cargos (work levels) de duas instituições. A primeira, com informantes da área de tecnologia da informação, era uma instituição financeira privada; e a segunda, com informantes de todas as diretorias, era uma instituição de capital majoritariamente público do Estado de São Paulo. Ambas as instituições eram de capital aberto e com ações listadas na Bolsa de Valores de São Paulo. O processo sucessório que emergiu através da investigação com uso do método de Ground Theory foi representado segundo o modelo de axial coding, a partir do qual se demonstrou que o processo de sucessão formal é mediado por fatores que constituem as circunstâncias externas e as circunstâncias internas às instituições, bem como as circunstâncias pessoais dos atores sociais que compõem seus recursos humanos. Conclui-se que o planejamento sucessório nas organizações encontra-se em um estágio no qual os atores sociais não estão plenamente envolvidos e sua ascensão ou não às posições a que se dispõem ocupar na condição de potenciais sucessores é definida por representantes nos comitês constituídos para esse intento. A avaliação de desempenho é tida como requisito básico, porém condicionado à avaliação de potencial do ator social. No contexto contemporâneo, a definição operacional de sucessão deixa de ter como requisito básico a figura do profissional (a ser) sucedido ou a posição (a ser) vacante, podendo os potenciais sucessores alçar a posições criadas, sem ocupação anterior. É possível, portanto, que a movimentação se dê em sentido não apenas ascendente, mas também lateral e descendente.
 
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